Doutor Carlos Leite

3 de dezembro de 2008

Evitando a obesidade

Arquivado em: Pediatria — admin @ 3:12

 

É necessário prevenir a obesidade, que hoje é considerada uma doença quando alcança determinadas proporções. Ela começa insidiosamente, sem que a mãe se dê conta e estabelece a base para expansão futura, com a multiplicação das células que armazenam a gordura. Ninguém é gordo por vontade própria. Se fosse fácil emagrecer, não teríamos esse bando de obesos que vemos nas ruas, na TV, em qualquer cidade ou país.

 O índice de massa corporal, que é a relação peso dividido pela estatura ao quadrado (IMC = peso em k/altura em cm ao quadrado)  é a medida da gordura do corpo, calculada numa relação entre altura e peso e  tem servido para determinação do peso ideal, sobrepeso e obesidade,. Tem sido questionado por não levar em consideração a hipertrofia muscular, edema, ossatura, conteúdo gastrintestinal. Deve-se avaliar as pregas cutâneas, que acima do percentil 90, confirmam o diagnóstico.

 

Peso ideal ( IMC) =  percentil 50 em K / quadrado da altura em M.   (até 25)

IMC = peso em K/quadrado da altura em m

Baixo peso        < l8,5

Normal        entre l8,5 e 24,9

Sobrepeso    entre 25 e 29,9

Obeso          acima de 30

Obesidade mórbida acima de 40

 

Existem trabalhos relacionando a possibilidade de problemas cardíacos com o índice do IMC. Outros trabalhos  valorizam mais a relação cintura (quadril) para avaliar o risco de ataque cardíaco.

 As causas são múltiplas, incluindo fatores genéticos, psicológicos, hábito[1]s e cultura, com predominância de maus hábitos dietéticos, baixo nível de atividade física, e excesso de atividades sedentárias.. Os casos secundários, de origens endocrinológicas ou genéticas são exceções. Entre 40 e 80% das crianças obesas serão adultos obesos. Esta relação é maior entre adolescentes do que em pré-escolares., mostrando que quanto mais cedo se enfrentar o problema, melhores serão os resultados.

           Os pediatras usam  gráficos de crescimento  que permitem prever aqueles que poderão  desenvolver sobrepeso e abordar  o problema antes que aconteça: é muito difícil perder peso, mas como a criança está crescendo, manter o peso  corresponde a uma perda. Além disso, corrigir um desvio no início é melhor do que depois de estabelecido. Mesmo assim, o sobrepeso e obesidade estão se tornando problema mundial.  Entre nós, chega a alcançar perto de 20 % dos adolescentes.     Problemas glandulares (hipófise, tiróide e supra-renal) são raros e a causa mais comum reside mesmo no desequilibro entre a ingestão e o consumo de calorias, modulados por fatores genéticos que determinam o metabolismo corporal, isto é, o consumo de calorias: existem famílias que mesmo comendo em excesso não engordam.  Lembre-se que fatores emocionais também podem levar à compulsão por alimentos e à perpetuação do problema.  

  Sabemos que os adipócitos (células que acumulam gordura) só se multiplicam na infância e adolescência, época em que devemos nos preocupar mais em evitar ganho de peso, para que eles não se multipliquem.  Nas outras fases da vida eles aumentam de tamanho, mas até determinado limite. Por isto a lipoaspiração, que é a retirada dessas células, é tão usada.

  Como os adultos, as crianças obesas estão sujeitas a uma maior incidência de várias complicações: a curto prazo, dificuldade de aceitação pelo grupo, apelidos negativos, além dos naturais problemas emocionais, depressão e baixa estima. A longo prazo, doenças como diabete, hipertensão, distúrbios do metabolismo de gorduras (dislipidemia), arteriosclerose, problemas ortopédicos, hérnias, varizes. Some-se a isto os problemas emocionais e baixa estima, causados pela insatisfação com o aspecto físico.  

Tudo piora se ocorre na adolescência.

Nesse caso, mais do que nunca, prevenir é o melhor caminho. Com a ajuda dos gráficos de peso e altura e IMC, ficamos conhecendo o nosso alvo. Mas se já existe sobrepeso, que necessita ser reduzido,  é indispensável a mudança dos hábitos alimentares, do qual  toda a família deve participar, mesmo  aqueles que não precisam perder peso, mas que também terão serão beneficiados pela mudança para uma alimentação mais saudável. O objetivo é  pequena e continua redução do peso. Não é necessário cortar tipos de alimentos: de início reduza aqueles que contêm mais calorias e aumente o consumo de verduras e legumes crus.  

Aqui entram os hábitos alimentares, já discutidos: preferir alimentos cozidos ou assados, (pela baixa quantidade de gordura e conseqüente, menos: cada grama de gordura fornece 9 calorias, enquanto um grama de proteína ou carboidrato fornece 4 calorias), consumir  mais  cereais integrais, usar mais as frutas, legumes e verduras de baixo valor calórico, fazer pequenas refeições a cada 3 horas.

           Bom costume é iniciar as refeições com uma salada, quando a criança pode comer à vontade e depois completar com pequenas porções dos alimentos que ela  preferir, estimulando-a a saborear cada garfada, como aquele menino que lambia a colher toda vez que levava o doce de leite à boca , enquanto seu irmão só a lambia no final, e sempre acabava a refeição primeiro, apesar de comer mais.  A alimentação vagarosa, a mastigação demorada facilitam a digestão e ajudam no alcance da saciedade com menos alimento: há tempo de que os estímulos cheguem ao cérebro alcançando os níveis da consciência de que é tempo de parar, antes de ficar “empanturrado”.

          Troque carne gorda por peixes e aves; elimine ou reduza o consumo de guloseimas (refrigerantes, sanduíches, mel,  balas, biscoitos, sorvetes, doces, chocolates, chips, que não acrescentam nada), controle o tempo em frente do computador ou da televisão, quando as inevitáveis idas  à geladeira acontecem. Aprenda a gostar de legumes crus que podem ser servidos a qualquer hora: tomate, rabanete, cenoura, pepino (cortado fininho, com adoçante que tenha baixo teor de sódio, como é servido em restaurante japonês). Se o apetite apertar fora de hora, mastigue  legume cru, com baixo teor de calorias, como um desses citados.

        Se a influencia genética é grande (história familiar de obesidade), é ainda mais importante manter a disciplina alimentar e criar o  hábito de praticar esportes ou exercícios físicos. Estes, quando feitos com constância, liberam endorfinas que dão sensação de bem estar e se transformam em atividade lúdica que o próprio organismo passa a exigir. Também  aumentam o consumo de calorias, fortificam todo o organismo e aumentam a massa muscular.  Na sua prática, no clube, academia ou lugar da caminhada, cria novo grupo de  relacionamento com pessoas diferentes, e mantêm a criança longe da geladeira. Geralmente após atividades físicas temos necessidade de repor o liquido perdido, o que reduz o apetite.

         A perda de peso deve ser lenta, mas constante, desde que se modifique o hábito alimentar de toda a família: cada grama de proteína ou hidrato de carbono fornece 4 calorias e cada grama de gordura fornece 9 calorias. Uma caminhada de uma hora, no plano, a uma velocidade de 4 quilômetros por hora consome cerca de 300 calorias. Calcule o valor de um  sanduíche ou de um prato caprichado. É muito difícil gastar as calorias que ingerimos com exercícios, mas eles produzem endorfinas, alteram o metabolismo corporal, facilitando o gasto energético. Portanto, além do exercício físico, parta para um novo hábito alimentar para a toda a família. É bom para todos


[1] Lancet – Maria Grazia Franzosi, do Instituto Mario Negri, Milão,

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