Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade, antigamente chamado Disfunção Cerebral Mínima (DCM), é o novo nome dado às crianças com dificuldade em fixar sua atenção por tempo razoável, têm movimentação ininterrupta, agem com impulsividade sem analisar seus atos, sintomas que permanecem além da idade de aquisição das funções executivas controladoras dessas atividades. Sabe-se que a maturação da córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pela aquisição dessas funções depende da mielinização de suas estruturas, o que ocorre em torno dos seis a sete anos. Antes dessa idade é normal o encontro desse quadro clínico. O diagnóstico, clínico, é baseado na tríade: desatenção, impulsividade e hiperatividade, que se combinam de diferentes formas em diferentes pacientes. Nas formas de deficit de atenção, o potencial evocado pode mostrar resposta lenta, mas não é conclusivo. É importante que os sintomas estejam presentes em todos os ambientes, (em casa, na escola, no clube), em intensidade superior a que se esperaria para aquela idade (sempre acima de seis anos, mas nunca com inicio na adolescência), de maneira persistente a ponto de causar prejuízo no relacionamento.
É um transtorno neurobiológico, de origem genética (em torno de 80%), levando a déficit de neurotransmissores (substância que permitem a transmissão de impulsos nervosos entre os neurônios.:dopamina, noradrenalina, serotonina) e sua intensidade vai depender da associação de fatores genéticos e ambientais. Pode se estender à vida adulta em cerca de 40%, principalmente a desatenção.
Embora possa haver casos só de desatenção, outros de hiperatividade, pode haver concomitância dos dois quadros. De modo geral, nas meninas predomina a desatenção: daí esperar-se que elas tenham dificuldades escolares, mesmo tendo QI normal ou elevado; os meninos são mais inquietos, semelhante à educação permissiva, quando os pais não definem limites ou são superprotetores. A distinção se faz pela idade de apresentação: antes de 6 anos. Nos dois casos, embora por motivos diferentes, a criança é rotulada de criança problema, rebelde e desacreditada, mal recebida nos ambientes que freqüenta. Como conseqüência, sente-se humilhada e impotente para buscar seu lugar, perdendo a autoestima.
Crianças após os seis anos, com estas características que se repetem em vários ambientes (em casa, na escola, no clube), de maneira persistente a ponto de causar prejuízo no relacionamento, devem ser avaliadas. Nessa idade as visitas ao médico não são freqüentes e geralmente por outros motivos. O comportamento da criança pode ser mais comedido durante a consulta impedindo que o médico tenha percepção do problema. A família deve ajudar, relatando sobre seu comportamento inquieto para que o pediatra possa avaliar. O diagnóstico é clinico, facilitado pelas tabelas abaixo, com pontuação de zero, um, dois e três, conforme a intensidade do problema, se houver. Pode existir se o somatório dos índices for maior que 32.
A – Desatenção persistente repetindo comportamentos:
1 – Falta de atenção a detalhes, comete erros por descuidos nos trabalhos da escola
2 – Dificuldade em fixar sua atenção em tarefas escolares ou atividades lúdicas.
3 – Parece não ouvir quando se fala diretamente com eles.
4 – Não segue instruções até o fim e não completa suas tarefas escolares ou domésticas.
5 – Tem dificuldade em organizar tarefas e atividades
6 – Evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que exigem esforço mental prolongado
7 – Perde coisas necessárias a suas atividades: brinquedos, livros, lápis.
8 – Distrai-se com estímulos externos.
9 – Esquece de suas atividades diárias.
B – Hiperatividade ou impulsividade
1 – Está sempre agitado, andando ou correndo a mil por hora.
2 – Costuma dar respostas antes que a pergunta seja toda formulada.
3 – Tem dificuldade de brincar sozinho.
4 – Não gosta de aguardar sua vez.
5 – Interrompe conversas alheias de adultos ou outras crianças.
6 – Não são bem aceitos pelo grupo.
Os pais devem preencher o mesmo formulário. Se houver divergência, um deles usa caneta vermelha.
Outro formulário deve ser preenchido pelos professores, especialmente para hiperatividade. Tem 16 itens e a apuração dos pontos segue os mesmos valores: zero a três. Acima de 32, deve-se investigar mais.
Outro auxílio é o uso da tabela DSM-10, que distingue três tipos:
Predominância de desatenção
Predominância de hiperativo-impulsivo
Tipo combinado
O encontro desses sinais não significa que a criança tenha o problema e o pediatra deve buscar outras fontes de informação, em outros ambientes. Os pais são bons informantes e a escola tende a supervalorizar os sintomas, sobretudo nos hiperativos, que podem perturbar a disciplina da escola. O diagnóstico pode ser facilitado com o uso de escalas acima (Conners), e DSM-10, dependendo da avaliação do neurologista, pediatra, sendo as vezes necessário ajuda do psicólogo.
Esta avaliação é importante porque, diferentemente do que se pensava, o problema pode não desaparecer na puberdade e se estender à vida adulta. É importante também para identificar transtornos que comumente se associam como o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC – impulsos recorrentes e persistentes que geram angustia ou, comportamentos repetitivos executados até a exaustão); ou Transtorno Opositivo Desafiador (TOD – não reconhecimento de autoridade) e o Transtorno de Conduta (TC – não cumprimento constante de regras sociais, às vezes agressividade, trazendo risco às pessoas e prejuízo no inter-relacionamento pessoal) e outros. A associação desses transtornos, se não identificados, influi na estratégia do tratamento, podendo levar a resultados aquém do esperado.
O tratamento compreende a instituição de condutas comportamentais( déficit de atenção: aula de reforço, se necessário psicopedagoga; acrescentar para as meninas com TDH, esportes (natação, ginástica olímpica) dança, música. No caso de TDH: capoeira, karatê, futebol). Algumas vezes isto é o bastante, não obrigando uso de medicamentos.
1 - Estimulantes: metilfenidato (de ação rápida (Ritalina, ou de absorção lenta, Ritalina LA e concerta)
2- Inibidores da recaptura da noradrenalina: antidepressivos tricíclicos (imipramina)
3- Novo medicamento: atomexetina, não encontrado no pais, mas pode ser importado.
Individualizar cada caso: pode-se usar em uma ou duas doses diárias, apenas dos dias de aula, ou uso continuo.
O resultado é bom, mas pode necessitar de tratamento longo, com acompanhamento de psicólogo.